sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Terapia do Prazer

Esses dias estava sozinha a procurar um bom documentário para assistir no Netflix, não simpatizei com nenhum. Aproveitando o fato de "estar sozinha", coloquei então na categoria de filmes românticos. Sabe como é... eu sou de libra, o marido é de escorpião, e ele não tem esse sangue de morango com chocolate correndo em suas veias, portanto o catálogo do Netflix sempre gera acordos e desacordos.
Bom, fui rodando as sinopses dos filmes e vi um filme de 1997 chamado Terapia do Prazer. O resumo dizia que um casal busca ajuda de um terapeuta sexual e se inicia nos mistérios do sexo tântrico. Me pareceu uma boa pedida já que um tempo atrás tinha comprado um livro no sebo sobre tantra.
Fui em busca do meu escorpiano, que estava deitado na minha maca (resquício da época em que eu era massoterapeuta). Ele já tinha sido devidamente massageado e havia tomado relaxante muscular para aliviar sua dor no pescoço e na cabeça (quem é casado com professor(a) sabe do que eu estou falando). Fui perguntar se ele estava bem, ele disse que sim, falei para ele do filme, voltei para a sala e dei o play.
Cinco minutos depois, o escorpiãozinho se aconchegou no sofá para ver se o filme realmente seria interessante.
Alerta: spoiler!!
Fomos pegos de surpresa no decorrer do filme. Não sabíamos que muitas questões que o casal do filme passa eram familiares para nós também; felizmente não tive gatilho nenhum, acho que estou conseguindo olhar as coisas mais distantes agora, vamos dizer que a cicatriz do abuso está mais branquinha, mais velha, já não inflama com tanta frequência.
No filme, o marido descobre que as dificuldades sexuais da esposa se devem a um trauma sexual muito forte, um incesto. O que transcorre depois é muito interessante, ele descobre que a esposa estava indo a um terapeuta sexual que ensinava sobre o tantra. Se sente traído, vai tirar satisfação e, por fim, conversando com o terapeuta da esposa, ele mesmo começa a ser "iniciado" na prática do tantra.
As coisas que lhe são ensinadas me fizeram lembrar de um livro que li e me ajudou muito, se chama Vagina, de Naomi Wolf (quero muito escrever no blog sobre esse livro). Nele a autora aborda questões biológicas e culturais, e mais um monte de outras coisas em torno da vagina, tudo isso para fundamentar que a vagina é mais que um orifício em nosso corpo. E, sim, é uma força poderosa que está ligada diretamente ao nosso cérebro. A verdade é que a energia sexual, quando é vivenciada de maneira consciente com autorrespeito e amor próprio, pode levar a um estado de harmonia, de conexão com o mundo e, além disso, faz a mulher também se tornar mais confiante e criativa, o que a torna, por fim, dona de seu corpo. Esse livro é muito rico em muitos sentidos, pois a autora entrevista muitos profissionais.
No livro, ela argumenta que um trauma sexual, além de ficar registrado no corpo, fica registrado no cérebro, portanto, apesar de muitos anos após o trauma, a vítima apresenta diferenças cerebrais que incluem alterações no tamanho e ativação do hipocampo e nos níveis de cortisol. Um trauma sexual pode literalmente reprogramar o seu corpo, em que passa a existir: estado de tensão permanente, estresse e medo, ou seja, segundo pesquisas recentes, o sistema nervoso autônomo é modificado após um trauma sexual, e isso afeta o corpo, os afetos e até disposição em criar, em trabalhar e sentir alegria nas minímas coisas. Para se ter uma ideia da belezura desse livro, a autora chega a ir até Serra Leoa para entrevistar mulheres que foram vítimas de estupros (estupros como arma de guerra) e também entrevistou os estupradores. Me lembro que parei de ler esse livro por semanas depois desse capítulo, pois entendi que uma mulher brutalmente ferida é extremamente interessante para os "donos da guerra". Uma mulher ferida, que tem a sua vagina destruída, tem também parte de suas funções cerebrais afetadas, o que faz que ela não responda mais para a vida, nem mesmo quando seus filhos são sequestrados para virarem soldados. 
Como reconhecer uma uma mulher ferida em qualquer parte do mundo?
Olhe seus olhos! Existe vida? Existe brilho?
Falo disso porque, mesmo que a vida nos empurre a vivê-la e, às vezes, passe a impressão de que uma mulher é feliz na intimidade do lar, esse olhar ferido é rapidamente percebido pelo companheiro(a). Esse é um dos fatos abordados nesse filme que assisti. O marido percebe que a esposa sempre deu sinais de desequilíbrios. Na vida sexual, inclusive, ele fica surpreso ao descobrir que a mulher não tem orgasmos.
O terapeuta, em uma primeira conversa com o marido, lhe pede para descrever em detalhes como ele faz amor com a  esposa. 
Minutos depois, ele conclui: "você faz amor com você mesmo, não com a sua esposa".
É realmente chocante... com os ensinamentos do tantra, ele começa primeiro a entender que sexo tem a ver com a sua relação com seu próprio corpo. Daí vem a pergunta: você se masturba? (alerta tabu!) a orientação é clara: quem não sente prazer com o próprio corpo não consegue dar prazer a outro corpo.
Durante o filme, o terapeuta vai passando vários exercícios tântricos, práticas que nunca serão encontradas em filmes pornô - que infelizmente são altamente consumidos por homens, objetificando a mulher e a beleza de um ato sexual. 
O terapeuta transmite instruções como: "sinta a energia no corpo de sua mulher, olhe nos olhos dela, veja como ela sente prazer em seu próprio corpo e permita que ela veja como você sente prazer em seu corpo...", por aí vai.
Bom, quando você acha que o filme chegou ao ápice e que tudo deu certo, ocorre o contrário, tudo desmorona! 
Liberar a energia sexual não é simples quando se foi vítima de um abuso. A esposa fica muito mal depois de terem feito amor e finalmente consegue relatar os próprios traumas sexuais e explicar como é difícil ter prazer em meio a flashbacks do passado. 
O terapeuta avisa que a piora é necessária e que o marido precisa entender e dar espaço à esposa. Cenas bem fortes ocorrem no filme, ressalto o momento da terapia de grupo em que a esposa consegue detalhar seus sentimentos a respeito de quando fazem amor.
O final do filme é bem dolorido, mas ao mesmo tempo é transformador (dá-lhe alquimia!). O terapeuta explica ao marido que todo o processo nunca teve a ver com a esposa, mas sim com o marido, questionando-o sobre por que ele teria tanta necessidade em dar prazer à mulher sendo que recebia tão pouco de volta. 
Sim, queridos leitores, ao buscar o amor de alguém, na verdade, precisamos nos questionar acerca de que tipo de amor idealizamos, o que queremos em troca? 
E quando a troca não vem, quando não recebemos o que idealizamos? 
Sim, relações morrem nesse momento e outra relação pode nascer já destinada ao mesmo fim.
Terminamos o filme bem impressionados e também sensibilizados, uma vez que enredo e expectadores acabaram se misturando no processo.
É um ótimo filme para abordar a questão do trauma sexual (claro que se eu soubesse o teor da história provavelmente não iria assistir, por medo de gatilhos), mas também para levar a uma reflexão séria tão pouco abordada em nossa mísera sociedade atual: Como é a relação com seu corpo? Te ensinaram a amar o seu corpo? Quais os medos e tabus que fazem com que você não conheça o seu corpo? Você consegue proporcionar prazer a você mesmo? Você ama e respeita corpo do seu parceiro(a)? Você sabe que a energia sexual é extremamente importante para a nossa vida?
Faz bem pensar nessas questões e ler sobre o assunto. Não perca mais seu tempo acreditando que pornografia é sexo de verdade. 
É importante que nós, mulheres, percebamos que, sim, somos educadas consumindo revista Capricho e depois de adultas partimos para revistas quase semelhantes que ensinam a como agradar um homem na cama - "claro, porque se ele vai procurar sexo fora de casa a culpa é sua, que não sabe fazer, que não sabe agradá-lo..." 
Então, vamos rever esses conceitos aí, aprendizes de Deusas!
Ame-se profundamente e deixe-se ser amada!
Ressalto que a prática do amor não é somente bailar entre as luzes, mas também entre as trevas interiores de cada ser humano, sejam as suas ou de seu parceiro(a), o que implica na difícil arte de dar e receber amor e todas as entrelinhas que isso implica.

Cena do filme: Terapia do Prazer


Nenhum comentário:

Postar um comentário