segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Tour pelo meu corpo


    Desde que um fato aconteceu nos primeiros dias do ano, venho pensando em escrever para relatá-lo. Bom, este texto teria outro nome, porém agora achei melhor esse nome aí de cima: "Tour pelo meu corpo". Mas vou voltar aos acontecimentos para conseguir ser entendida.
  Eu acredito que tudo chega ou acontece na nossa vida quando estamos preparados, a tal da sincronicidade. Eu acredito também que não basta ter olhos, é necessário querer olhar.
      Nos últimos dias do ano passado, eu vi uma reportagem da BBC Brasil sobre Gordofobia e depois vi pelas redes sociais que a mesma reportagem foi alvo de preconceito do apresentador Danilo Gentili. A pessoa ofendida tem um canal no youtube que se chama Alexandrismos e seu nome é Alexandra Gurgel. Ela gravou um vídeo que viralizou, era uma resposta ao Danilo Gentili - e uma resposta muito boa por sinal. Fiquei muito tocada com o vídeo dela e fui assistindo outros... assisti um em que ela conversa com a jornalista Daiana Garbin, uma mulher dentro dos ditos padrões (alta, loira, magra e de olhos claros). Daiana é casada com outro jornalista bem famoso e faz algum tempo que pediu demissão da Globo e criou o próprio canal no youtube para falar de transtornos alimentares.
      O que Alexandra e Daiana têm em comum?
      Anos de sofrimento odiando o próprio corpo.
     Esses vídeos são bem pesados de assistir, pois elas tocam em suas próprias feridas. Daiana fala que chorou assistindo um vídeo de Alexandra que se chama "A solidão da mulher gorda". Eu fui assistir o vídeo e fiquei bem impactada, eu sabia o que era Gordofobia, mas nesse vídeo eu descobri que eu mesma era gordofóbica - e o pior: era ou sou gordofóbica comigo mesma. Não tenho os "sintomas" de quem pratica Gordofobia com o outro, mas descobri que por várias vezes faço isso comigo mesma. Um exemplo é achar estranho um casal de homem magro com mulher gorda (vice-versa). Sim, estou falando que esse pensamento tive comigo mesma algumas vezes, e daí vai para o "não sou bonita", ou quando não conseguia encontrar roupas para comprar e me culpava, achando que o problema era o meu corpo e não das lojas que não vendem tamanhos maiores.
      Em todos os vídeos a mensagem é: ame o seu corpo, não tenha vergonha dele, o caráter de uma pessoa não está em seu peso e tudo mais.
       Daiana também relata que durante seu trabalho na Globo, alguns de seus chefes falaram em diferentes momentos que ela precisava ser MAIS magra, o que só reforçava seus pensamentos sobre ela ser gorda (ela nunca foi gorda e nem teve sobrepeso).
     Depois que li isso, fiquei pensando um tempo... não existem repórteres gordos na TV, em nenhum canal! Quantas pessoas altamente profissionais perdem uma oportunidade de serem repórteres por questões estéticas?
     Achei todo o conteúdo que assisti uma coisa muito séria e dei graças às deusas por ele ter caído em meu colo. Faço parte de um grupo de estudos sobre questões ligadas ao corpo e ao Feminino e nesse processo fui aceitando e questionando muitas coisas sobre mim, minha história e também a relação que eu tenho com o meu corpo. Na terapia, também tratando das minhas feridas, percebi que não olhava o meu corpo, muito menos cuidava dele, por muitas vezes o escondia, pois não queria que ele chamasse a atenção, tinha medo de novos abusos, enfim... O olhar o corpo é realmente não perceber nem o tamanho real que ele tem. Eu meu achava gorda quando eu era magra, e quando fiquei gorda, achava que era magra ao ponto de comprar roupas erradas, ou seja, eu não percebia quando engordava ou emagrecia, tudo muito confuso na minha cabeça.
     Juntando tudo isso, vem o poder da mídia. E quando falo em "poder", é no sentido grandioso mesmo, ao ponto de existir o que é certo ou errado, padrão e não padrão. Somos muito influenciados o tempo todo, o que faz com que as pessoas não aceitem o que elas são. Não aceitam que o corpo se transforma com o tempo.
      Vou contar uma coisinha aqui bem rapidinho, assim como o corpo da criança uma hora vai embora, o corpo adolescente também vai, nunca o seu corpo de trinta vai ser o mesmo que o de 20, e assim por diante (por mais dentro dos padrões que você esteja).
      Uma coisa bem difícil e que vi nos vídeos e que todo mundo deveria exercitar é: NÃO dar pitaco no corpo alheio. Não faça isso!! Sei que todos nós fazemos isso ou já fizemos um dia. O corpo do outro é do outro, ok?! Se uma pessoa é gorda não quer dizer que ela é preguiçosa ou doente ou fracassada ou que não transa com ninguém. Assim como a magreza não quer dizer que a pessoa é saudável, bem sucedida, que pega todo mundo na balada. Não, não é nada disso!! Portanto menos julgamentos!!! E faça esse exercício com você mesmo em primeiro lugar. 
       Não maltrate o seu corpo (ou seja, não se maltrate; não vamos dissociar) de acordo com as coisas que acontecem no seu dia a dia. Por exemplo: uma professora minha, uma vez, me tratou muito mal mesmo, quando eu sai da sua sala, me veio uma vontade de comer algo muito gorduroso, um salgado frito ou algo parecido, e eu estava indo comprá-lo. Então pensei comigo (algo que aprendi no grupo de estudos): são 8h20 da manhã, eu tomei café da manhã, isso não é fome, eu não estou com fome, por que então fiquei com vontade de comer isso agora?
     Segundos depois, veio a resposta: estou com raiva, estou magoada, fui maltratada sem motivo. Depois disso é que veio a vontade de comer o tal do salgado. Quando elaborei esse pensamento, a vontade de comer sumiu rapidamente. Autoconhecimento é algo muito difícil de se fazer, mas não impossível, nossa relação com a comida é algo muito mais profundo, tem a ver com a relação que tivemos com quem nos alimentava desde pequenos, a mãe (principalmente), o pai ou com quem fez esse papel de cuidador. Nos tornamos adultos que não sabem o que é sentir fome, a fome nem chega de verdade, pois comemos de acordo com o que sentimos, raiva, alegria, tristeza. O transtorno alimentar não tem a ver com o sujeito e ponto, tem a ver com a forma como alguém foi criado, alimentado, amado. As pessoas estão engolindo os seus sentimentos em forma de comida, é preciso expressar as emoções e não comê-las. Eu já ouvi casos como o de garotas que tomam remédios para emagrecer, para serem bonitas e aceitas pela família, para sentirem que possuem algum valor - e o pior: são os pais muitas vezes que as levam ao médico e compram o remédio.
     Comprei o livro da jornalista Daiana Garbin e pude entender melhor a loucura que é ter um transtorno alimentar. Chegar ao ponto de fazer empréstimo para realizar uma cirurgia plástica (mesmo sem motivos) ou de colocar a cabeça dentro de uma lixeira para sentir o odor fétido com o intuito de fazer a fome passar ou ainda de se viciar de tal maneira em remédios para emagrecer a ponto de se injetar insulina mesmo não sendo diabética para caber no vestido de casamento... é muito triste!
      Bom, nesse processo fiquei muito reflexiva. No ano novo,  meu primo me mandou uma foto que ele encontrou de sua primeira eucaristia. Eu na foto estava com uns 16 anos e levei um susto, quem era aquela pessoa?
      Eu era muito magra, com os ossos aparecendo e tudo mais. Olhei bem para a foto e não me achei bonita, não tive saudades daquele corpo, a minha cunhada também viu a foto e me disse: Nossa Ju! Posso falar? Você está muito mais bonita hoje! 
      Eu concordei, é claro! Porque a beleza, queridos leitores anônimos, não está no tamanho do seu corpo, mas em como a pessoinha que habita aquele corpo está se sentindo. A garota magra da foto não era feliz, ela mal sabia quem ela era e das coisas que gostava, guardava um segredo terrível dentro do coração e nunca tinha sido tocada com o amor que merecia. 
      Percebi que, de uns tempos para cá, essa minha beleza salta aos olhos; eu emagreci?
      Não! Estou mais feliz?
       Claro que sim! Olhar para as minhas feridas, falar sobre elas e tratar o meu corpo com amor, me permitir sentir prazer, parar de tomar a pílula me fez sentir menos entorpecida, anestesiada, comecei a me sentir dentro de mim novamente, foi um grande passo.
       Bom, depois do evento da foto, outra coisa aconteceu que se tornou um motivo para que eu quisesse escrever este texto. No dia 2 de janeiro fui para Paraty, havia anos que não ia para a praia. Na verdade, desde 2008 não ia ver o mar, e, nos últimos meses, isso começou a me angustiar, sentia que eu precisava ver e nadar no mar, até comecei a sonhar com isso constantemente. Apesar disso, por uma série de fatores que aconteceram no final do ano, cancelamos a viagem. Por fim, fomos assim mesmo, sem planejar, em uma decisão de última hora.
    As praias mais centrais de Paraty não são recomendáveis para nadar, então, no dia seguinte, pesquisando na internet, achamos uma praia que se chama Praia Grande de Cajaíba. Uma praia isolada que também tem cachoeira, porém só se chega pelo mar, ou seja, nada de carro.
      Fomos para o cais e descobrimos que de barco ia demorar quase duas horas para chegar a ela, tudo a um precinho de R$400,00. Se a gente fosse de lancha, chegaríamos em 50 minutos. O ideal era conseguir pessoas que estivessem indo para o mesmo lugar e rachar a viagem. Um mulher de uns 60 anos se aproximou e disse que ia para uma praia ao lado,  Pouso de Cajaíba. O marinheiro (sim, eles existem!! falamos com um senhor de cabelos brancos, sentado de um jeito peculiar, todo vestido com roupas brancas e com um chapeuzinho do Popeye) nos disse que, para uma viagem mais barata, a gente poderia ir a outro cais onde saem lanchas de carga e não para passeio. Quase 30 minutos de caminhada, acredito que já estávamos na periferia de Paraty, chegamos ao cais e nos ofereceram a vigem por R$60,00 por pessoa, sendo que a gente iria junto com uma carga (cerveja, pão e água). Uma hora de espera conversando com essa mulher que estava sozinha com sua mochila e um travesseio na mão, descobrimos que ela era de São Paulo e ia encontrar "os filhos que fiz por aí". Levava seu travesseiro, pois não sabia quando iria voltar, nem onde iria dormir, levava umas cervejas também na sacola, bem empoderada, viajando sozinha há dias.
     Partimos na lanchinha rumo a tal da praia, a lancha ia muito rápido mesmo. Apesar disso, depois de uns 20 minutos, o cara parou a lancha e disse que ela tinha ficado muito pesada, o que faria a gente demorar muito para chegar. Nisso, já apareceu uma lancha menor. Ele disse para a gente ir com o outro cara e que não precisaríamos pegar para ele não, pagaríamos para o outro. No meio do mar, sem opção, mudamos de embarcação. A outra lancha foi realmente muito rápido mesmo, e a tal da praia era realmente muito longe. Mas enfim chegamos, e eu estava doida para finalmente mergulhar.
       A praia era um deslumbre de bonita, havia umas duas ou três barraquinhas de caiçaras e poucas pessoas (se tinha 25 pessoas era muito). Larguei tudo, mergulhamos e estava tudo ótimo. Como já era hora do almoço, fomos pegar o dinheiro para comer e vimos que tínhamos pouco dinheiro. Ali não aceitavam cartões, o que fazer?
        Pedimos um pastel e uma coca, e dividimos. O Leo foi perguntar no caixa da  barraquinha quando cobravam para a viagem de volta. Um cara que tinha uma lanha escutou a conversa e disse que por menos de R$200,oo era difícil quem levasse para Paraty. Nós estávamos com exatos R$139,00 na carteira - e agora?
        O fato é que ficamos tensos, como que a gente ia voltar ou sacar dinheiro, não tinha nada na praia. Se alguém fosse voltar para Paraty, mas as pessoas que lá estavam não pareciam que iriam embora. Escutei uma conversa de que eles estavam dormindo na casa dos caiçaras. Ficamos sentados observando e falei para o Leo conversar com os caras que tinham lancha e explicar a nossa situação. Ele foi conversar com um rapaz bem simples que tinha uma pequena lancha. Foi muito sincero: "Somos eu, minha esposa e R$139,00. Acho que o cara ficou um pouco sensibilizado e disse que 17h levaria a gente de volta para Paraty. Resolvido isso, nos sobravam quatro horas para aproveitar.
      Havia tão poucas pessoas na praia que a maioria ficava embaixo da mesma árvore, uma grande árvore em busca de sombra. O pessoal era bem tranquilo, quase todos estavam lendo livros ou dormindo. Não tive medo que nos roubassem ou coisa do tipo. O Leo decidiu deitar e eu disse que iria andar. Vivi uma sensação de plena felicidade. Andei quase 1 km sozinha beirando o mar e não tinha ninguém, nenhuma alma viva, bem deserto mesmo, e eu não tive medo de estar ali sozinha: a sensação de não ter medo e me sentir segura foi inexplicável. Fiquei sentada um bom tempo olhando o mar e agradecendo, depois fui nadar naquelas águas bem calmas. Parecia uma piscina gigante. Preferi voltar nadando em vez de andando. No meio do caminho, encontrei o Leo, que voltou comigo nadando também. 
      Comentei com ele sobre o fato de me sentir segura em todos os sentidos. Ele disse que sentia isso também, que as pessoas ali estavam para curtir e que o lugar era tão longe que era praticamente impossível ter assaltante.
     Voltando para debaixo da árvore, o Leo deitou de novo e eu fiquei relaxando, mas sentada mesmo, curtindo a vista e observando tudo. Vi que o cara um pouco mais à frente de mim estava lendo Jorge Amado, e havia umas mulheres lendo também no silêncio, só se ouvia o mar. As mulheres que ali estavam não tinham vergonha do corpo, digo isso porque tinha umas duas ou três gordinhas de boa em seus biquínis - e afirmo: eram muito lindas, transbordava uma beleza diferente delas. Daí foi que aconteceu o que venho anunciando desde o início do texto: uma das mulheres tirou a parte de cima do biquíni. Ela era magra, bem branquinha, fez seu topless. Levei um susto, meu primeiro pensamento foi: vão retalhar essa mulher, sei lá, vão xingá-la ou alguma mulher vai ter uma crise de ciúmes ou algum homem vai assediá-la. Para piorar o aperto do meu coração, ela se deitou e colocou uma camiseta nos olhos e foi dormir.
     Meu Deus!! Achei-a bem louca, estava quase pedindo licença e indo cobri-la, para proteger, sei lá. Mas fiquei olhando e percebi que ninguém ali ligou para o acontecido, nem as mulheres, nem os homens, nem as crianças que brincavam, filhos dos pescadores: ninguém ligou! Foi então que pensei: esse lugar é seguro mesmo!!  Ninguém vai se agredir ou arrumar confusão.
      Estava maravilhada, acordei o Leo e disse: aqui é muito seguro, tem uma mulher fazendo topless bem de boa.
      Nisso, algumas  mulheres entraram no mar para se banhar com os seios desnudos. Estavam felizes, tranquilas, algumas voltaram do mar e foram para seus livros, outras foram se aconchegar no namorado. Disse para o Leo: olha que bonito! 
        Eu vi uma mulher sair do mar, parecia uma deusa, linda! Ria e falava com os amigos. Ela era bem gorda, e estava linda com os seios desnudos - um corpo feliz! um corpo em que mora uma pessoa feliz! 
      Ela saiu, se enxugou e colocou um vestido. Foi tão lindo de ver que parecia que ela se movimentava em câmera lenta.
    Ah! Lembra do cara que estava lendo Jorge Amado?
     Então, ele começou a ficar com outro cara, bem no carinho, bem no chamego. E estava tudo bem! ninguém julgou ninguém seja pelo corpo ou pela orientação sexual. 
      Disse para o Leo: aqui é o paraíso!
    O dia terminou com uma chuva bem forte, para lavar a alma mesmo!! Voltamos em uma lanchinha para Paraty. No meio da chuva, os pingos pareciam pequenas pedrinhas em nossos corpos, a lancha pulava tanto que eu achava que estava montando um boi; não enxergava nada à minha frente e não tinha nada na lancha, nem salva-vidas. Foi assim por uma hora. Nos solavancos mais fortes, eu olhava pro Leo e caía na risada, fazer o que né?
      Até pedi para Iemanjá acalmar o mar para conseguirmos chegar a Paraty, onde aportamos depois de uma hora.
         Amei esse dia e voltei pensando em escrever o texto: "Paraíso Perdido, o lugar onde podemos ser o que somos!"
        Por fim, virou outra coisa hoje, pois vi no youtube um vídeo que se chama "Tour pelo meu corpo", do canal "Tá querida!", da Luiza Junqueira. Achei muito inovador, pois as pessoas fazem vídeos, tour pelo meu quarto, tour pela minha sala e a danada da menina fez um tour pelo corpo dela.
      O vídeo é lindo, é uma lição de amor!! Adorei quando ela fala: peito é mole mesmo porque é feito de carne!!
      Daí, pelo que pesquisei, ela iniciou um movimento e vários youtubers começaram a fazer a mesma coisa, com a finalidade de mostrar um corpo real, diferente dos padrões. E tem uns videos lindos!!
      Eu chorei com o vídeo da Gabi Oliveira, ela faz um tour pelo rosto dela, ressaltando seus traços chamados "negroides" e contando como já sofreu, como se achava feia por ser negra e hoje se ama muito!!

Moral da história: 
O amor cura!! 
O autoamor cura!!
Não odeie seu corpo!!
Ame seu corpo!!
Não fale de um corpo que não seja o seu!!

Por hoje é só!
Beijos de Luz!! hahahahah
#Paz

Obs: Aí vão os vídeos de que falei!!

Resposta ao Danilo Gentili

A solidão da mulher gorda


Tour pelo meu corpo

Tour pelo meu rosto

Transtorno alimentar e distorção de imagem

Livro da Daiana Garbin

Sobre gordofobia


Eu aos 16 anos






Eu com 34 anos, na Praia Grande de Cajaíba

Praia Grande de Cajaíba



Nenhum comentário:

Postar um comentário