quinta-feira, 8 de março de 2018

Parte 2 - Carta aberta ao meu abusador


   Há algum tempo, venho pensando em escrever a continuação desta carta, como forma de agradecimento, mas também para dizer o que aconteceu depois de sua publicação.

      Caso você, querido leitor, não tenha lido a primeira parte desta Carta, acredito que seja melhor você ler, é só ir na parte direita do blog e procurar na coluna: inclassificável.

  Nesta semana aconteceu um fato decisivo para que finalmente eu conseguisse escrever. Eu recebi um e-mail de uma jovem mulher que relatava ter lido esta carta.
   Como esta carta chegou até ela? 
  Eu não sei, mas chegou! Acho que o pássaro de que falei na carta anterior anda voando por alguns lugares e deixando a mensagem para quem precisa. Esse e-mail me comoveu muito, como não se comover com uma história parecida com a sua? Bom, eu respondi carinhosamente a ele e decidi escrever  novamente sobre isso no blog.

   A primeira coisa que me veio à mente para contar foi qual o processo que culminou com a carta, e foi nessa hora que vieram os desenhos à minha cabeça. Os desenhos do meu abuso. Mas antes de escrever sobre isso, preciso contar uma coisa.
   O início do ano passado foi bem pesado emocionalmente para mim. Comecei a ter alergia em fevereiro, manchas avermelhadas começaram a aparecer em meu corpo, elas queimavam, doíam, e partes do meu corpo começaram a inchar muito. Fui ao dermatologista, e ele receitou alguns remédios, diagnóstico: urticária. Ele me explicou que não havia um exame específico para saber a procedência da alergia, mas ressaltou que o ciclo da urticária durava dois meses. Os remédios me ajudaram um pouco, mas não por completo. Eu ia dormir, e pela manhã as manchas estavam lá, às vezes os meus olhos amanheciam inchados, outras vezes a minha boca ficava três vezes maior. Na terapia, chegamos à conclusão de que era raiva, a tal da raiva saindo pelos meus poros, a raiva que eu não conseguira colocar para fora. 

    Em meio a tudo isso, uma das minhas sobrinhas faleceu, e foi a coisa mais triste que presenciei, sinto em minha vida até hoje. Ver o meu querido irmão e cunhada passarem por tudo isso foi dolorido demais e foi também aprendizado. Eu acreditava que a maior dor da minha vida era o abuso sofrido na infância, mas não... a maior dor, o dia mais triste para mim até hoje foi aquele, o dia em que a Athina faleceu. E esse fato mexeu comigo, a certeza não era mais certeza, a minha dor perdeu força dentro de mim e sabe por quê? Porque a vida continua e precisamos deixar que ela se movimente, até as nossas dores precisam se movimentar, dar lugar a outras que virão. A pequena Athina representou para mim "a vida que não pôde ser vivida". E aí eu pirei pensando: o que eu estou fazendo com a minha vida? Estou vivendo mesmo? Uma semana depois que ela partiu, eu tatuei (minha primeira e talvez  única tatuagem) a letra A com um coração amarelo no meu pulso direito. A letra A, por ser a inicial do seu nome, Athina, e o coração amarelo, pois pouco tempo antes de seu falecimento eu tive um sonho com ela. Sonhei que a carregava no colo, de suas mãos saíam pó de ouro, e esse pó eu guardava em uma caixinha. Essa pequena realmente trouxe "ouro", riqueza de sabedoria, não só para mim, mas principalmente para seus pais que foram transformados por sua passagem por aqui. Daqui a alguns dias vai fazer um ano que a nossa pequena se foi, mas deixou em nossos corações uma bela herança: Afeto! Fomos literalmente todos afetados por sua vinda e é uma honra carregar o seu nome no meu corpo até o fim dos meus dias.

  A minha alergia piorou muito depois de tal fato, hoje entendo que fez parte do meu processo.
    Bom, algum tempo depois, na terapia, eu estava contando alguma coisa que me fazia lembrar do meu abuso para a minha psicóloga, ou melhor, das consequências do abuso, coisas que interferiam no meu cotidiano. A minha psicóloga me disse que não sabia como eu tinha sido abusada. Eu me assustei! Como ela não sabia? Eu tinha contado a ela! Ela então me esclareceu que sim, eu havia contado que tinha sido abusada e o que isso acarretava à minha vida, porém eu não tinha contado o que de fato havia acontecido. Eu me lembro de que respondi a ela que talvez teria contado a ela em outra dimensão de tanta certeza que eu tinha dentro de mim sobre o fato. Mas, não, eu ainda não tinha contado a ela, mais de um ano de terapia, nos vendo toda semana, e eu nunca tinha contado. Eu me lembro de que chorei dizendo a ela que talvez eu nunca contaria porque ia me doer demais, ir me desmanchar por completo, e eu não queria isso. Tinha um milhão de coisas para fazer, último ano de faculdade, estágio, TCC... enfim...
    Fui para casa e depois de uns dias eu pensei: como vou contar isso? Ela vai me entender? Foi então que me veio em mente desenhar, literalmente desenhar as minhas lembranças e assim foi ... sozinha em casa coloquei no papel a minha primeira memória, eu queria que a minha psicóloga olhasse como se estivesse com os meus olhos, observasse o que tinha na minha frente, o ambiente em que eu estava  enquanto estava sendo abusada. Foi assim então que desenhei uma sala (a sala da casa da minha avó), uma estante, uma televisão, um colchão e três pessoas deitadas: a minha tia, seu marido (meu abusador) e eu. Do lado do desenho escrevi todas as sensações que me vieram, depois disso chorei muito. Eu realmente era muito pequena.
      Levei o desenho à terapia e mostrei... (pausa para o choro aqui do lá de cá do teclado) Eu me lembro de que naquela sessão eu me dera conta de muitas coisas que eu não estou conseguindo escrever aqui... mas são sensações de estar sozinha, confusa, com medo, de pensar: será que a minha tia estava vendo? Será? PAVOR! Foi isso o que a minha criança não conseguiu articular, o meu adulto agora conseguia... PAVOR! 
      Eu me lembro de ter perguntado  para a minha psicóloga se aquilo, aqueles toques, tinham sido abuso. Foi abuso? Porque por tantos anos eu me senti tão confusa sobre isso, algumas pessoas a quem contei não me ouviram, chegaram a me dizer que "isso não foi nada, acontecem coisas piores". Mas eu era uma criança muito, muito, pequena. A resposta veio: Sim, isso foi um abuso! 
     Alguém precisava validar a minha dor, ela validou, a terapia é o espaço para isso.
      Nas semanas seguintes, eu levei outros desenhos: uma boca grande, uma árvore, um caderno, e assim foi. Meu marido viu o primeiro desenho e ficou muito triste, não quis ver os outros, ele também não tinha dimensão dos detalhes, do que os meus olhos viam.
     No meio de todo esse processo, acredito que movimentei uma energia enorme, e coisas começaram a acontecer. Uma delas, que desencadeou a carta, foi em uma noite que meu marido conseguiu me dizer (ele também tinha começado a fazer terapia) que sentia falta de carinho, de toque, sabe aquele toque do dia a dia. Nós sempre fomos carinhosos com atitudes e palavras, mas ele estava se permitindo dizer coisas que antes não se permitia, afinal eu sempre fui frágil demais. Isso me deixou muito triste, vê-lo triste, me senti horrível, cheguei à conclusão de que eu não dava carinho, toque, nem para os meus cachorros. Eu fiquei mal e, no dia seguinte, sozinha em casa, eu chorei muito e senti uma raiva tamanha que resolvi colocar para fora, sentei à frente do computador e escrevi a carta chorando muito, muito, mesmo.

     Apesar do título da carta, eu nunca tive a intenção de enviá-la ao meu abusador. Se eu quisesse, teria meios para fazer isso. Mas não, não quis, não quero e não permito que nada sobre mim possa chegar aos seus olhos. O nojo por aquele ser e sua esposa ainda é enorme e, só de imaginar que isso pudesse acontecer, me dá náuseas. 

       A carta em si foi avassaladora,  nunca havia escrito alguma coisa chorando tanto. Foi muita energia em cada palavra. Eu finalmente tinha colocado para fora um pouco da minha dor. Depois, naturalmente, veio o pensamento... e se eu publicasse?
       Ao mesmo tempo que eu tinha essa vontade de finalmente quebrar em mim alguns dos meus medos, talvez o maior deles, me veio o medo de ser julgada pelo bicho mais cruel da natureza: o ser humano. Foi então que veio a ideia de escrever um prefácio para colocar "alguns pingos nos is". Contei sobre a carta para o meu marido, mas ele disse que não gostaria de ler, mas me apoiaria caso eu realmente publicasse a carta. Levei então a carta para a terapia e disse da minha intenção de publicar, e conversei sobre isso. Eu ainda relutei, tentei esquecer a carta, deixá-la para lá, mas não consegui também, parecia que ela tinha tomado vida. Foi então que eu tive um sonho. Sonhei que a minha psicóloga me dizia que a minha carta não estava boa. Acordei bem incomodada. Inclusive contei a ela depois. 
            O que será que faltava naquele texto? Já tinha colocado tudo ali! eu tinha certeza! Esse sonho foi bem providencial, realmente a carta não estava completa, ela precisava de explicações para os possíveis leitores, um fio de esperança, uma luz ao final do túnel, um carinho depois do tombo. E foi assim que sentei de novo e escrevi o posfácio. A carta ficou pronta!

      Daí aconteceu outra coisa bem decisiva para a publicação,  o meu outro irmão veio passar as férias de julho em casa com as suas filhas. Foi uma semana bem legal, pois as minhas sobrinhas ainda não conheciam a minha casa aqui no Paraná. Uma delas estava para fazer aniversário, iria fazer 11 anos. Me dei conta de que na idade de 11 anos tinha sido a última vez em que fui abusada, foi quando eu consegui dizer: Para! Eu não gosto disso! Se fizer isso, eu vou contar para os meus pais! E ele nunca mais encostou aqueles dedos sujos em mim. A criança estava crescendo, os seios começavam a aparecer, e eu consegui ser forte e dizer não. Ao olhar a minha sobrinha feliz e brincando em casa, eu levei um susto! Eu era pequena, eu era uma criança, não tinha sequer corpo de adolescente. Meu passado me rondava. O abuso é como se fosse um fantasma que vem te vistar de vez em quando, das maneiras mais improváveis, vinha agora em forma de aniversário, com uma idade específica, a idade do último abuso. Entendi que precisava fechar esse ciclo. Assim que a minha família foi embora de casa, eu decidi publicar a carta.
    Falei para o meu marido que dois meses depois daquela crise, eu queria que a carta voasse por aí. Foi então que ele resolveu ler a carta, ademais, como um profissional das letras, queria revisar o texto, para que tudo fosse perfeito. Eu agradeci e esperei, pois a tal da revisão não se deu em um dia. Ele leu, se emocionou, parou, e depois de alguns dias tudo ficou bem. Fui no blog e cliquei no botão publicar.

   Divulguei a carta somente no meu facebook, onde eu adiciono somente pessoas que conheço pessoalmente e também  "local" que não tenho adicionado grande parte da minha família (mais especificamente, apenas adicionei duas pessoas da família). Publiquei a carta e saí da internet, fiquei com uma mistura de medo e ansiedade. Horas depois, para o meu alívio, li recados carinhosos e respeitosos de amigos e professores da faculdade. Me senti aliviada, a carta teve quase 300 visualizações.
       Uma das coisas que eu queria, e falei disso na carta, era conhecer os meus iguais, aqueles que, como eu, tinham passado por tal violência na infância. E vieram... recebi mensagens de pessoas que eu não imaginava, que conviviam comigo de perto há algum tempo e que também tinham passado por isso. E AGRADEÇO AQUI PUBLICAMENTE A VOCÊS QUE ME ESCREVERAM RELATANDO UM POUCO DE SUA DOR PESSOAL. Foi muito importante para mim, me senti triste ao ler, ao mesmo tempo em que me senti acolhida por vocês escreverem. SOMOS SOBREVIVENTES! E cada pessoa que me escreveu encontrou meios de seguir em frente, apesar de ainda ser muito difícil.

        Depois da publicação da carta a alergia foi embora.

       E finalmente mais confiante, com menos peso em minhas costas, consegui, aos poucos, conhecer "a parte roubada de mim". Fiquei menos tensa, meu marido pôde entender muitas coisas em nossa intimidade que antes era impossível  para mim colocar em palavras. Por exemplo: às vezes tinha flashbacks. Eu via o rosto do meu abusador quando estava fazendo amor, era horrível, a imagem aparecia sem a minha permissão. Depois disso, eu não conseguia fazer mais nada. 
      Hoje eu entendo que a imagem aparecia nas partes do meu corpo em que ele tocou, não era por acaso. Nos meses seguintes, fui me apropriando das minhas partes, percebi que comecei a me cuidar mais, do cabelo aos pés, agora eu dava atenção, tentava me olhar mais no espelho, sentir cada pedaço do meu corpo, exercitando o toque. Sim, foi me passado esse exercício para eu fazer todos os dias. E assim, aos poucos, fui relaxando e tocando mais meu amado marido, um abraço, um cafuné, um olhar, um deslizar de mão pelo seu dorso. Um dia muito feliz para mim foi quando ele me disse que eu não me assustava mais. 
               Como assim? Assustada? 
          Ele me explicou que, por vezes, em nossa rotina em casa, ele chegava para me acarinhar mais maliciosamente (a famosa pegada), e eu assustava, ficava brava, falava sempre para me perguntar antes se ele podia me tocar. Naturalmente, ele foi parando de tentar, pois via que eu me incomodava. As coisas estavam mudando, e dessa vez para melhor. Outro momento transformador foi a finalização do meu TCC, analisei (de acordo com a teoria elaborada por Carl Gustav Jung, a Psicologia Analítica) o livro Diário de Anne Frank como Símbolo no processo de individuação de uma leitora, no caso eu sou a leitora. Foi bem intenso, pois também tem a ver com meu trauma, mas isso é outra história, não vou me aprofundar aqui.
      Uma decisão muito importante para mim também foi parar de tomar o anticoncepcional, muitos anos de medicamento por conta dos ovários policísticos. As dores de cabeça estavam bem frequentes, sentia dores nas pernas por conta das varizes que foram aumentando ao longo dos anos e também porque tinha lido um estudo em que associava  o medicamento com a depressão. Pesquisei bastante e vi que era possível tentar um tratamento mais natural. No dia 7 de setembro dei meu grito de liberdade (coincidência, né?!), fui dormir e não tomei a pílula. Estava com medo do que poderia acontecer? Muito!! Até chorei! Mas encarei!! 
      Com o passar dos meses os pelos voltaram com mais frequência, a acne também, e a queda de cabelo ficou bem estranha. Isso foi a parte ruim, que felizmente tenho conseguido manejar. A parte boa foi que me senti mais disposta, as dores de cabeça agora são raras e o meu humor melhorou muito, fico pensando se a minha depressão foi mais penosa por conta do medicamento. A parte BEM BOA MESMO!! foi que a minha libido voltou ao normal, para quem não sabe, a pílula dá uma "castrada" na mulher.
             Imagina eu "castrada" e com alguns traumas?! Tive que aprender a lidar com essa libido toda, coisas que antes eu não sentia foram acontecendo, e eu me espantava e até comemorava. Não me permito entrar em detalhes aqui porque senão isso vira um conto erótico, e não é essa a finalidade. 
            Outra coisa que ajudou foi ir ao sebo e comprar um livro sobre o Tantra, a chamada Yoga do Sexo. Sempre tive o pé atrás com o Tantra, pois, para mim, por motivos óbvios, é inconcebível ir a um local e passar por um tratamento com outras ou outra pessoa me tocando. Não consigo. Mas tendo acesso à literatura específica, comecei a praticar em casa, e o resultado foi impressionante. Posso dizer que me sinto curada e plena em diversas áreas. Conseguir ter intenso prazer com amor, sem medo, conseguir dar prazer ao meu amor é algo transcendente, uma experiência sagrada.

      Vou descrever uma cena muito pessoal aqui, apenas para dimensionar o quão grandioso é conseguir se apropriar do próprio corpo:
     Eu e meu amado abraçados embaixo do chuveiro, eu chorando, em extrema emoção. Quando consegui respirar disse a ele que sentia que a cada vez que fazemos amor é um remédio que adentra em minha alma, me sentia cada vez mais curada, mais inteira. Ele me respondeu que ambos estávamos sendo curados, que ele queria, sim, que cada vez mais eu sentisse mais prazer por todo o meu corpo e ele também.

     Descobrir e sentir que a energia sexual é muito importante e potente, literalmente te deixa mais saudável tanto no corpo quanto na alma.  Quando conseguimos ver o sexo de maneira boa, prazerosa, sem as limitações sociais e até mesmo sem as limitações causadas por traumas, a vida começa a vibrar pelos poros, de dentro para a fora. Se sentir amada, sentir desejo e ser desejada é muito transformador! 
      Cabe ressaltar que tal processo foi ao longo de vários meses, talvez, uma vida toda não é mesmo?!  

     As minhas partes, queridos leitores, estão se unindo finalmente, a pequena Ju, o Tomás e a Serena. Sinto que agora tomei "posse" da Serena (uma Serena com menos raiva e mais centrada, mais desejosa, mais amada e mais bonita).

       Estava aqui pensando que, agora, depois de dois anos de terapia, ainda não terminei de desenhar todos os meus abusos, materializar todas as minhas memórias. O processo é lento e doloroso. Esta semana tive vontade de desenhar mais um abuso, mas não consegui, não sei quando vou terminar de desenhar, ou se ainda quero, dou tempo ao tempo. Quero aproveitar o fato de estar falando neste assunto para ligar com a novela que está passando na Globo "O outro lado do Paraíso". Acredito que o autor foi muito feliz em levar o tema Pedofilia a milhões de pessoas em horário nobre. Muitas pessoas estão se reconhecendo e tomando coragem para denunciar o abuso sexual infantil. Recebi um relato emocionante por e-mail de um casal no qual o marido, assistindo à novela, entendeu que sua esposa tinha sido abusada na infância, e ela finalmente teve coragem de abrir o coração e confessar ter passado por tamanha atrocidade ainda tão pequena. Abordar esse tema na novela tem muito valor. Por conta disso, eu mesma comecei a acompanhar a personagem e me reconhecer, chorei muito na cena em que ela finalmente se lembra de ter sido abusada pelo padrasto. Achei a cena brilhante! Acho que poeticamente conseguiram materializar que na memória infantil é tudo muito confuso, o que fica são as sensações de toque, de escutar uma gargalhada, de olhar uma mão gigante vindo em sua direção e de sentir dor, raiva, medo. Meus elogios terminam aqui, agora vem a crítica pesada mesmo, colocar na novela uma advogada coach para "acessar a memória" da mulher foi de uma irresponsabilidade gigantesca. O já famoso recalque (mecanismo de defesa descrito na psicanálise) tem uma função muito importante de proteger o ego, a consciência. Os mecanismos de defesa são necessários, pois, por vezes, o sofrimento é tamanho que é necessário literalmente haver uma proteção, um esquecimento, para a pessoa não cindir com a realidade. Eu passei por recalque dos 11 aos 16 anos, eu me esqueci do acontecido, até que um dia as memórias foram ativadas por um acontecimento específico.
      Casos de abuso infantil devem ser tratados por psicólogos, por bons profissionais. Acabei de relatar aqui que eu demorei mais de um ano para conseguir detalhar o meu abuso para a minha psicóloga e agora, depois de dois anos, ainda não contei tudo o que me aconteceu. Porque é por demais difícil e doloroso. O bom profissional sabe esperar o tempo do paciente, sabe fortalecê-lo a cada sessão, para que naturalmente a pessoa conte sobre o próprio sofrimento. Na novela, vimos claramente como a personagem Laura surtou quando recobrou essas memórias. As consequências do trabalho dessa coach poderiam ser mais desastrosas ainda, psicologicamente falando.
         
        Minha carta aqui se encerra com um alívio no peito e um sentimento de gratidão avassalador. Agora já sou psicóloga formada, o ano passado foi bem difícil, a flor para nascer precisa estourar a casca da semente, eu estourei a minha e atualmente estou estudando para abrir na minha cidade um grupo terapêutico para adultos que sofreram abuso sexual na infância. Vou trabalhar com aquilo que me fez ser o que hoje eu sou, vou prestar um tipo de serviço psicológico que eu mesma não consegui encontrar. 

         Vida que segue! 
         Vocês conseguem ver o meu sorriso?
         Vocês conseguem ver a minhas lágrimas de felicidade?
         Um grande abraço a todos!!
          
                  
        Observações do amor: vou colocar  ao final da postagem fotos de livros que me ajudaram muito. E gostaria de agradecer a duas pessoas especiais, aqueles que me deram acolhimento e amor nessa caminhada.

       A minha QUERIDA psicóloga, Mariana Borges A. de Lima, agradeço as Deusas por ter encontrado uma profissional tão porreta! (não consigo pensar em outra palavra, rs) Tão comprometida! Tão linda! Que consegue andar junto comigo pelos os meus escombros e que ama muito essa profissão, da qual hoje eu também compartilho. Muito obrigada, de coração!

          Ao meu AMADO marido Leonardo Cassanho Forster, obrigada por esses quinze anos ao meu lado. Sabe, outro dia, estava conversando com uma amiga e ela me relatava sobre as próprias dificuldades emocionais, estas também advindas da infância. Ela me disse uma coisa que achei muito maravilhosa, disse que o marido a amparava muito e que ele conseguia fazer isso porque também tinha as próprias dores "Juliana, um homem saudável não daria conta de mim!". Achei essa frase brilhante! E eu entendi o que ela quis dizer, só consegue segurar alguém que está sofrendo quem também já sofreu. O dito saudável na sociedade é não ter problemas, é ser feliz a maior parte do tempo. Nesse senso comum do que é ser saudável, definitivamente não nos encaixamos. Mas, para a minha amada Psicologia, ser saudável é conseguir lidar e conviver com o sofrimento, buscar novas formas de enfrentar a vida e, quiçá, ser feliz. Acredito que estamos colhendo o nosso "quiçá", a minha mudança fez você mudar e se permitir a desejar a vida de outra forma, um novo caminho, com outras descobertas. Saiba que agora é a minha vez de dar colo, de aliviar as suas dores da maneira mais presente possível. Estou mais feliz, mais forte e com mais fé na vida. Conte comigo, meu amor, hoje, amanhã e sempre! Muito obrigada por tudo!

    Livros:









      

Um comentário:

  1. Oi querida!
    Eu nem imagino o tamanho da sua dor, mas acredito que foi muito importante vc ter falado sobre ela. Pq, embora nenhuma dor se compare a outra, todos nós seres humanos temos feridas abertas. E hoje em dia, por fora, todo mundo se mostra o tempo todo feliz, muitas vezes é desgastante, pesado, exaustivo ter que viver na sociedade se escondendo em máscaras. Tenho certeza que ajudou muita gente. Sobre o anticoncepcional, tbm já ouvi falar que tem relação com depressão, existem outros tratamentos sem a pílula para a síndrome dos ovários policísticos (só que muitos médicos não estão "abertos" a isso), mas é importante vc ir no médico regularmente e estar sempre em dia com seus exames. Desejo tudo de melhor pra vc! Bjss..

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