sexta-feira, 29 de junho de 2018

Sobre o princípio do prazer

(inspirado na conversa do almoço)

- Bom dia, abra os olhos, vamos, abra os olhos para ver como eu estou bonito.
  Eu abro os olhos e o vejo sorrindo para mim.
  Ele fica tão bonito de camisa social.
- Onde você vai bonito desse jeito?
- Eu vou bonito assim para todos os lugares, meu amor.
  
  Eu adoro o jeito convencido dele.

- Estou indo trabalhar. Não esqueça de colocar o seu alarme. Já estou com saudades.
   Ele me beija e vai embora.
   Ouço o portão de casa abrir e fechar e adormeço novamente.
   Eu nunca acordo com o alarme, porque a Gigi me acorda antes com os seus latidos.
   Coloco a roupa para lavar na máquina.
   Faço chá e como pão com manteiga.

   Eu adoro pão com manteiga.

   Passo a minha blusa.
   Tomo banho.
   Me arrumo.
   Coloco a minha bota preta velha.

   Eu adoro a minha bota preta.

   Sei que, às vezes, ela não combina com a minha roupa, mas o conforto que sinto nos pés fala mais alto.
   Enquanto a máquina de lavar centrifuga, tomo um pouco de sol no quintal.

   Eu adoro o solzinho da manhã.

   Estendo as roupas.
   Coloco ração e água para a Gigi e para o Xerife e aviso aos dois a que horas vou chegar hoje.
   Coisa de mãe.
   Vou me embora.
   Ando.
   Pego o ônibus para o centro da cidade.

   Eu adoro o centro da cidade.

   Quando eu tenho tempo, gosto de entrar nas galerias que ficam no térreo dos prédios antigos para ver os mosaicos no chão.

    Eu adoro mosaicos no chão.

    Chego no prédio onde trabalho e subo quatro lances de escadas até a minha sala.
     O prédio é velho.

     Eu adoro prédios velhos.

     Prédios velhos são espaçosos.
     A grade que protege o vão das escadas é colorida.
     Vermelho, amarelo, azul, verde, rosa, laranja.
     O lustre no teto é antigo e também todo colorido.
     É brega!
     
     Eu adoro coisas bregas.

     O brega não tem compromisso de ser neutro, bonito, clássico, inovador ou chique.
     Ele é o que é.
     Eu gosto disso.
     Acho anarquista.
     No meu andar tem a sala de um advogado.
     Ao lado, um distribuidor de semijoias.
     Daí vem a sala do tatuador.
     Depois é a minha sala.
     Introvertida que sou, acho graça tanta gente diferente no mesmo andar.
     Me lembra feira de rua.

     Eu adoro ir a feira.

     Quando entro na minha sala é sempre um carinho na alma.
     Como eu amo o meu trabalho.
     O ser humano é um bicho bonito.
     Um universo todo ainda desconhecido.
     No meu trabalho não tem rotina.
     Todos os dias são imprevisíveis.

    Eu adoro não saber o que vai acontecer.

    Eu nunca sei o que vou ouvir dos meus pacientes.
    O que eu escuto deles me atinge.
    Preocupa.
    Emociona.
    Me transforma.
    Trabalho.
    Almoço.
    Estudo.
    Trabalho.
    A noite cai e vou embora.
    Às vezes, quando desço as escadas, ando no corredor do primeiro andar.
    Prédio velho.
    Tem mosaico no chão.
    Vou andando até o ponto.
    Espero o ônibus.
    Pego o ônibus.
    Eu moro bem longe do meu trabalho.
    Tempo suficiente para escutar as histórias ao meu redor.
    A última do trajeto trabalho-casa foi:
 - Valéria, a Copa do Mundo faz milagre! Não aparece ninguém na emergência do hospital. É um sossego!

   Eu adoro escutar histórias.

   Desço no meu ponto e vou até a padaria antes que ela feche.
   Compro pão e queijo.
   Carolina de limão para mim.
   Carolina de brigadeiro para ele.
   Ando mais três quarteirões e chego na minha casa.
 - Cadê o meu coelhão?
   Xerife sai da casinha e vem correndo.
 - Cadê o meu coelhão?
   Ele corre, vai até a porta de casa e volta várias vezes.
   Suas orelhas voam para cima e voam para baixo.

   Eu adoro esse coelhão de 32 quilos.

   A Gigi me olha melancólica, porém feliz.
   Acho que ela anda meio triste por causa das dores no corpo e da cegueira do olho esquerdo.
 - Cadê a minha veinha?
    E ela vem toda manhosa.
     
    Eu adoro a minha veinha.

    Faço café.
    Apesar de já ser quase oito da noite.
    Eu adoro tomar café sozinha depois que chego do trabalho.
    Como uma carolina de limão.
    Entro no WhatsApp, no grupo que tem os amigos da época da faculdade.
    A gente se ajuda.
    Se acolhe.
    Conta fofoca.
    Manda memes.
    Fala sacanagem.
    Compartilha sonhos oníricos e sonhos reais.
    Isso me relaxa.

    Eu adoro os meus amigos.

    Levo os cachorros para passear.
    Ando devagar, pois senão a minha veinha não aguenta.
    Volto para casa.
    Recolho as roupas do varal.
    Vou tomar banho.

     Eu adoro o banho da noite.

     Eu não preciso me preocupar com o tempo.
     Não preciso ter pressa.
     Passo perfume.
     Vou fazer a janta.
     Deito no sofá e espero ele chegar.
     Quase onze da noite e ele chega.

     Eu adoro quando ele chega.

     A casa fica cheia.
     A casa fica completa.
     Se percebo que ele está cansado além da conta, pego a velha garrafa de vinho que usamos como candelabro.
     Encaixo a vela e acendo.
     Pode parecer brega fazer isso no meio da semana.
     Eu adoro coisa brega.
     Acho anarquista.
     A luz da vela tem poder calmante.
     Ele me conta as suas novidades.
     Eu conto as minhas novidades.
     Eu coloco música.
     A Gigi sempre dorme rápido quando tem música.
     Ele levanta e vai fazer chá de melissa.
     Eu prefiro chá de boldo.
     Meu corpo agradece.
     Vou deitar e ele vai tomar banho.
     Quando ele deita comigo, fica cheirando o meu cabelo.

     Eu adoro quando ele me cheira.

     Fecho os olhos.
     Eu adoro.   

     













Arte de Amanda Oleander



        


  

     
   
   

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